A saúde mental passou a ser a principal preocupação de saúde dos brasileiros, superando o câncer. Entenda o que está por trás desse cenário e como ele se relaciona com o trabalho, a ansiedade e o burnout.
A saúde mental entrou definitivamente na agenda da sociedade
Durante muitos anos, quando falávamos sobre os principais problemas de saúde da população, doenças como câncer e problemas cardiovasculares apareciam naturalmente entre as maiores preocupações.
Hoje, esse cenário mudou.
Segundo o Ipsos Health Service Report 2024, a saúde mental passou a ocupar o primeiro lugar entre as preocupações relacionadas à saúde no Brasil, superando o câncer, o abuso de drogas e a obesidade.
Mais do que um dado estatístico, essa mudança revela uma transformação na forma como vivemos, trabalhamos e percebemos nosso próprio bem-estar.
A evolução da preocupação dos brasileiros com a saúde mental
| Ano | Brasileiros que apontam a saúde mental como principal preocupação |
|---|---|
| 2018 | 18% |
| 2021 | 40% |
| 2022 | 49% |
| 2023 | 52% |
| 2024 | 54% |
Fonte: Ipsos Health Service Report 2024.
Em apenas seis anos, a preocupação praticamente triplicou.
Esse crescimento dificilmente pode ser explicado por um único fator. Ele parece refletir uma combinação de mudanças sociais, culturais e profissionais que tornaram o sofrimento emocional mais frequente — e também mais reconhecido.
O que esse dado realmente significa?
É importante fazer uma distinção.
A pesquisa não afirma que existam mais transtornos mentais do que casos de câncer.
Ela mostra que, quando perguntados sobre os maiores problemas de saúde do país, os brasileiros passaram a colocar a saúde mental no topo da lista.
Essa mudança na percepção merece atenção.
Durante muito tempo, o sofrimento emocional permaneceu invisível. Muitas pessoas conviviam com ansiedade, esgotamento e estresse crônico sem identificar esses sinais como um problema de saúde.
Hoje existe maior conscientização, mais informação e uma redução gradual do estigma. Ao mesmo tempo, também vivemos em um contexto de maior pressão, insegurança, conectividade permanente e dificuldade para descansar.
Esses fatores ajudam a explicar por que a saúde mental passou a ocupar um lugar tão central nas preocupações da população.
O trabalho aparece como um dos principais cenários dessa mudança
Quando observamos outras pesquisas recentes, um padrão começa a surgir.
Levantamento citado pela revista Forbes Brasil, com base em dados da Gupy, mostra que cerca de sete em cada dez profissionais brasileiros afirmam sentir-se emocionalmente sobrecarregados.
Entre os fatores mais mencionados estão:
- pressão constante por resultados;
- metas difíceis de alcançar;
- excesso de demandas;
- cultura da disponibilidade permanente;
- falta de reconhecimento;
- dificuldades na relação com a liderança.
Esses elementos ajudam a compreender por que falar sobre saúde mental hoje significa, inevitavelmente, falar também sobre trabalho.
O crescimento dos afastamentos confirma que o problema vai além da percepção
Os dados do Ministério da Previdência Social reforçam essa preocupação.
Em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um aumento de aproximadamente 67% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica.
Esses números mostram que não estamos falando apenas de pessoas cansadas.
Estamos falando de sofrimento emocional suficientemente intenso para comprometer a capacidade de trabalhar, tomar decisões, manter relacionamentos e sustentar a própria rotina.
O problema não é apenas trabalhar muito
Na prática clínica e ao longo da minha trajetória em Recursos Humanos, Desenvolvimento de Pessoas e Saúde Mental Corporativa, tenho observado algo que os números, sozinhos, não conseguem explicar.
Muitos profissionais não adoecem por falta de competência.
Adoecem justamente pelo excesso dela.
São pessoas responsáveis, comprometidas, confiáveis e altamente produtivas.
Profissionais que resolvem problemas, assumem responsabilidades, apoiam equipes e costumam ser aqueles em quem todos confiam.
Mas existe uma pergunta que raramente fazem a si mesmos:
Quem cuida da saúde emocional de quem está sempre cuidando de tudo?
Ao longo do tempo, a soma de pequenas renúncias começa a cobrar um preço.
- O descanso é adiado.
- Os limites deixam de existir.
- As necessidades pessoais ficam sempre para depois.
- A sensação de urgência torna-se permanente.
- Quando isso se prolonga por meses ou anos, o problema deixa de ser apenas cansaço.
- Passa a comprometer a clareza, a capacidade de decidir, os relacionamentos, a criatividade e a própria saúde.
Precisamos repensar o significado de sucesso
Durante décadas, aprendemos a medir sucesso por indicadores como cargo, salário, produtividade e crescimento.
Mas talvez estejamos vivendo uma mudança importante.
Cada vez mais pessoas começam a se perguntar:
Quanto desse sucesso foi construído às custas da própria saúde emocional?
Essa talvez seja uma das discussões mais relevantes para profissionais, líderes e organizações nos próximos anos.
Não basta crescer.
É preciso conseguir sustentar esse crescimento.
Crescer profissionalmente não deveria custar a saúde emocional
O fato de a saúde mental ter ultrapassado o câncer como principal preocupação dos brasileiros não representa apenas uma mudança nas estatísticas.
Representa uma mudança na forma como compreendemos o trabalho, a carreira e a qualidade de vida.
Talvez o maior desafio não seja produzir mais.
Talvez seja aprender a construir uma vida profissional que não exija abandonar a si mesmo no caminho.
Porque desempenho sem saúde emocional tem prazo de validade.
E crescer profissionalmente não deveria custar o seu bem-estar. Concorda?
Um abraço!
Sheila
Fontes
- Ipsos. Health Service Report 2024.
- Forbes Brasil. Epidemia silenciosa: saúde mental ultrapassa câncer e se torna a maior preocupação dos brasileiros.
- Ministério da Previdência Social. Dados de afastamentos por transtornos mentais (2024).


