Antes de desenvolver novas habilidades, cuide do seu principal recurso estratégico: a sua mente

Eu sempre ouço pessoas me perguntando como podem performar mais, como se tornar mais estratégicas, como desenvolver novas competências ou crescer profissionalmente. São perguntas legítimas e, na maioria das vezes, carregam uma intenção muito positiva de evolução. Afinal, quem ocupa posições de liderança, gestão ou exerce funções de alta responsabilidade sabe que o aprendizado contínuo faz parte da carreira.

E eu realmente ajudo meus clientes nesse processo. Trabalhamos comunicação assertiva, inteligência emocional, liderança, tomada de decisão, posicionamento profissional e tantas outras competências que fazem diferença no mundo do trabalho. Mas existe um ponto que considero anterior a qualquer plano de desenvolvimento.

Antes de pensar nas habilidades que você precisa adquirir, vale a pena olhar para o recurso que será responsável por utilizar todas elas: a sua mente.

Ela é o principal instrumento estratégico de qualquer profissional. É através dela que interpretamos situações, tomamos decisões, avaliamos riscos, resolvemos problemas e planejamos o futuro. A qualidade dos nossos pensamentos influencia diretamente a maneira como sentimos, agimos e respondemos aos desafios da vida profissional.

Costumo dizer que existem duas formas muito diferentes de usar a mente. Há quem a utilize para analisar a realidade. E há quem, sem perceber, a utilize para sofrer. Essa diferença parece sutil, mas transforma completamente a forma como vivemos.

Nossa mente é um espaço extraordinário. Ela organiza informações, constrói hipóteses, cria conexões, aprende com as experiências e faz previsões sobre o futuro a partir de tudo o que já vivemos. Esse funcionamento é essencial para nossa adaptação ao mundo. O problema começa quando ela deixa de ser um instrumento de análise e passa a funcionar como uma fábrica permanente de preocupações, culpas e antecipações.

É nesse momento que muitas pessoas passam a sofrer muito mais pelas histórias que constroem internamente do que pelos acontecimentos em si. É como costumo dizer: "usar a mente como inimiga."

Na prática clínica, observo esse padrão com muita frequência entre diretores, gestores, médicos, advogados, empresários, engenheiros e outros profissionais que ocupam cargos de alta responsabilidade. Curiosamente, quase nunca eles chegam por falta de competência técnica. Na maioria das vezes, o sofrimento nasce da forma como interpretam a própria experiência.

Lembro-me de uma gestora que procurou atendimento depois de apresentar um projeto importante para a diretoria da empresa. A reunião havia sido muito bem recebida. Ela recebeu elogios, teve suas propostas aprovadas e saiu com um resultado bastante positivo. Ainda assim, passou os dias seguintes completamente angustiada porque, em determinado momento da apresentação, precisou consultar suas anotações durante alguns segundos.

Enquanto todos enxergavam uma apresentação consistente, sua mente repetia outra narrativa: "Eles perceberam que eu não dominava o assunto", "Na próxima reunião preciso fazer melhor", "Não posso cometer esse tipo de falha novamente".

Nenhuma dessas conclusões era sustentada pelos fatos. Eram interpretações construídas pela própria mente. E, apesar de não corresponderem à realidade, produziram ansiedade, insônia e uma enorme sensação de fracasso.

Esse tipo de funcionamento é muito comum na ansiedade de alta responsabilidade. A pessoa não sofre apenas pelo que aconteceu. Sofre, principalmente, pela maneira como continua vivendo aquele acontecimento dentro da própria mente.

Talvez você reconheça esse processo na sua vida. Quantas vezes ficou preso durante dias a uma conversa que já terminou? Quantas vezes reviveu inúmeras vezes um erro que não podia mais ser corrigido? Quantas vezes comparou sua trajetória à de outra pessoa e concluiu que estava atrasado? Ou passou horas imaginando problemas que sequer haviam acontecido?

Nossa mente tem uma enorme capacidade de criar cenários. Quando não percebemos esse funcionamento, começamos a responder emocionalmente a situações que existem apenas como projeções internas. Por isso gosto de lembrar uma ideia que costuma provocar bastante reflexão nos meus pacientes: passar pela dor é inevitável, mas permanecer no sofrimento depende, em grande parte, da forma como administramos essa experiência dentro de nós.

Isso não significa negar dificuldades ou fingir que tudo está bem. Existem perdas, críticas, frustrações, mudanças e decepções que realmente doem. A dor faz parte da experiência humana. O sofrimento prolongado, entretanto, muitas vezes é alimentado pelas interpretações que repetimos diariamente. Quanto mais revisitamos determinadas narrativas, mais nosso cérebro entende que elas são importantes e mais facilmente elas voltam a ocupar espaço na nossa consciência.

É por isso que a maneira como gerimos nossa mente influencia tanto nosso estado emocional.Ela po de nos conduzir para um lugar de clareza, equilíbrio e capacidade de ação. Mas também pode se transformar em um carrasco silencioso que alimenta culpa, comparação, medo e autocobrança constantes.

Ao longo de mais de quinze anos acompanhando profissionais que convivem com altos níveis de exigência, percebo que aqueles que conseguem sustentar uma carreira saudável não são necessariamente os mais inteligentes ou os mais produtivos. São, quase sempre, aqueles que aprenderam a desenvolver uma relação diferente com os próprios pensamentos. Eles entendem que pensamento não é realidade. É uma interpretação da realidade. Essa compreensão muda tudo.

É justamente isso que chamamos de presença. Não se trata de esvaziar a mente ou eliminar pensamentos negativos. Trata-se de desenvolver a capacidade de observá-los sem acreditar automaticamente em tudo o que eles dizem. Quando conseguimos criar esse espaço entre o pensamento e a resposta, deixamos de reagir no piloto automático e passamos a fazer escolhas mais conscientes. Essa talvez seja uma das competências mais importantes para quem deseja crescer sem adoecer.

Vivemos em uma cultura que ensina continuamente como produzir mais, estudar mais, entregar mais e conquistar mais resultados. Pouco se fala sobre aprender a pensar de uma forma que favoreça esse crescimento.

No entanto, minha experiência clínica me mostra diariamente que desenvolvimento profissional sustentável começa muito antes de qualquer curso ou certificação. Ele começa na forma como conversamos conosco diante dos desafios, dos erros, das pressões e das responsabilidades que a vida adulta inevitavelmente traz.

No fim das contas, onde você se coloca internamente é onde você realmente está. Se a sua mente vive aprisionada em culpa, comparação e antecipação, seu corpo responderá como se esses cenários fossem reais.

Mas, quando você aprende a usar sua mente para compreender, analisar e incentivar seu próprio crescimento, ela deixa de ser um obstáculo e volta a ocupar seu lugar mais importante: o de ser sua principal aliada.

Porque, antes de desenvolver qualquer habilidade profissional, vale a pena cuidar do recurso estratégico que sustentará todas elas: a sua mente.

Um abraço!

Sheila

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